Uma conversa sobre fibromialgia, dor crônica e qualidade de vida, inspirada na obra de Frida Kahlo. Conheça os sintomas, como o diagnóstico é feito e opções de tratamentos.
Uma coluna partida e muitos pregos
Em 1944, Frida Kahlo pintou um de seus autorretratos mais conhecidos, A Coluna Partida.
Nele, o tronco dela aparece aberto ao meio, e no lugar da coluna vertebral há uma coluna de pedra rachada. Um colete de metal segura o corpo. O rosto está sereno, com lágrimas escorrendo. E a pele inteira está cravada de pregos, inclusive em lugares onde não existe ferida nenhuma…
Quem convive com fibromialgia costuma olhar para esse quadro e se reconhecer nos pregos. A dor que aparece em todo lugar, que “muda de endereço”, que não tem um machucado visível para justificar. E o rosto calmo por fora, porque a vida continua e alguém precisa ir trabalhar, cuidar dos filhos, cuidar da casa, e prefere muitas vezes dizer “tudo bem” ao invés de ter sua dor invalidada, mais uma vez.
Frida teve poliomielite na infância e, aos 18 anos, sofreu um grave acidente de ônibus na Cidade do México. Passou por dezenas de cirurgias e conviveu com dor pelo resto da vida. Em 2000, um grupo de reumatologistas mexicanos publicou um artigo sugerindo que, além das sequelas do acidente, ela pode ter tido fibromialgia (MARTÍNEZ-LAVÍN et al., 2000). É uma hipótese, e ninguém pode confirmar um diagnóstico de quase um século atrás. Mas a obra dela ajuda a conversar sobre algo que muita gente sente e tem dificuldade de colocar em palavras.

O que é a fibromialgia
A fibromialgia é uma condição de dor crônica e difusa pelo corpo, que dura pelo menos três meses e não se explica por lesão nos músculos ou nas articulações, ou seja, seus exames não apresentam alterações (apesar disso, eles são super importantes, e logo mais explico o porquê!).
Na fibromialgia, que muda é a forma como o sistema nervoso processa os sinais de dor. É como se o “volume” estivesse sempre alto demais: estímulos que antes eram neutros passam a doer, e o que já doía dói ainda mais. Nós chamamos isso de sensibilização central.
No Brasil, estima-se que cerca de 2,5-4% da população tenha fibromialgia, com predomínio entre mulheres de 30 a 50 anos. Homens, jovens e idosos também podem ter, e muitas vezes demoram ainda mais para receber o diagnóstico.
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A dor é o sintoma mais conhecido, mas raramente vem sozinha. Muitas pessoas descrevem também:
- Cansaço, que não passa com descanso
- sono leve, com a sensação de acordar tão cansada como quando deitou – é o “sono não reparador”
- dificuldade de concentração e esquecimentos – a chamada “névoa mental”
- rigidez ao acordar, mas sem artrite
- sensibilidade maior ao frio, a barulhos, à luz forte ou ao toque
- dor de cabeça frequente
- alteração de hábito intestinal
- ansiedade e desânimo, que tanto pioram a dor quanto são piorados por ela
Os sintomas costumam oscilar, semelhantes a uma montanha russa. Há semanas boas e há crises, muitas vezes puxadas por estresse, noites mal dormidas, mudança de tempo ou excesso de esforço. Essa oscilação confunde quem está de fora, e às vezes confunde a própria pessoa também.
Quando a dor não aparece no exame
“Mas seus exames estão ótimos“, “Você está com uma cara tão boa“, “Isso é coisa da cabeça“. Quem tem fibromialgia provavelmente já ouviu alguma dessas frases, às vezes de gente que ama muito.

A dificuldade vem justamente do que torna a fibromialgia diferente: não há um exame de sangue ou de imagem que mostre a dor. Isso não significa que ela seja inventada ou exagerada. A dor acontece no sistema nervoso, que é real e físico, só que não aparece em imagens. E, não, ainda não há exames, mesmo em 2026, que se mostraram eficazes no diagnóstico.
Frida pintou dezenas de autorretratos e explicava que pintava a si mesma porque passava muito tempo sozinha e era o assunto que conhecia melhor. De certo modo, ela resolveu a invisibilidade da dor colocando a dor na tela. Nem todo mundo vai pintar um quadro, mas a ideia serve: nomear o que se sente, anotar, descrever para os outros com as próprias palavras. Um diário simples, contando como foi o sono, onde doeu, o que ajudou e o que piorou, facilita muito as consultas e ajuda você mesma a enxergar padrões.
Como se chega ao diagnóstico da fibromialgia?
O diagnóstico de fibromialgia é clínico. O médico conversa com você, entende a história da dor, examina o corpo e avalia os outros sintomas, como sono, cansaço e concentração. Os exames pedidos nessa fase não servem para confirmar a fibromialgia, e sim para descartar outras doenças que podem causar sintomas parecidos.
E sim, eles são muito importantes, e muitas vezes, o diagnóstico não virá na primeira consulta, muito menos se essa consulta for de curta duração e baixa escuta.
Esse cuidado é importante. Várias condições podem se passar por fibromialgia, ou aparecer junto com ela, como:
- alterações da tireoide, principalmente o hipotireoidismo
- doenças reumáticas inflamatórias, como artrite reumatoide, lúpus e espondiloartrites
- polimialgia reumática, mais comum depois dos 50 anos
- deficiência de vitamina D, anemia e falta de ferro
- problemas musculares, inclusive os causados por alguns remédios
- apneia do sono e outros distúrbios do sono
- depressão e ansiedade, que podem causar dor e também costumam acompanhar a fibromialgia
Ter fibromialgia também não protege de outras doenças. Se surgir algo novo, como febre, perda de peso sem explicação, articulações inchadas e vermelhas, fraqueza de verdade (e não só cansaço) ou uma dor muito diferente da habitual, conte ao seu médico. Nem tudo o que dói passa a ser “da fibro” depois do diagnóstico, e isso, infelizmente, ainda é uma grande barreira, pois muitas vezes os sintomas são diminuídos e deixam passar tendinopatias, artrites, cólicas de rim, dores no peito, tudo por conta do diagnóstico de base.
O profissional mais habituado a fazer essa avaliação é o reumatologista, mas clínicos gerais e médicos de família também devem ser bem preparados para fazer o diagnóstico.
O tratamento da fibromialgia vai além do remédio
Conheça outras abordagens que também fazem a diferença
Muita gente chega ao consultório esperando uma receita que resolva tudo. Na fibromialgia, os remédios podem ajudar algumas pessoas, mas o efeito costuma ser modesto. As recomendações internacionais colocam em primeiro lugar a educação sobre a doença e o movimento.
O exercício físico é o tratamento com mais evidência de benefício. Parece contraditório pedir para alguém com dor se mexer, e o medo de piorar é compreensível. O segredo está na dose: começar bem devagar, com poucos minutos, e aumentar aos poucos. Caminhada, hidroginástica, bicicleta, fortalecimento leve, alongamento, yoga e tai chi são boas opções. A melhor atividade é aquela que você consegue manter. É normal sentir algum desconforto no início, e um fisioterapeuta ou educador físico pode ajudar a ajustar o ritmo.

Outras abordagens também fazem diferença:
- cuidar do sono, com horários regulares, menos telas à noite e um quarto escuro e silencioso
- terapia cognitivo-comportamental, que ajuda a lidar com a dor, o medo e os pensamentos que aumentam o sofrimento
- técnicas de relaxamento, respiração e meditação
- aprender a dosar a energia, alternando atividade e pausa, sem esperar a crise para parar
Aqui, a Frida volta à conversa. Presa à cama por meses depois do acidente, ela ganhou da mãe um cavalete adaptado e um espelho preso no alto da cama, e foi assim que começou a pintar. A arte não tirou a dor dela, mas deu a ela um lugar para onde ir. Pintar, escrever, costurar, tocar um instrumento, cuidar de plantas: atividades criativas e prazerosas não substituem o tratamento, mas ajudam a devolver ao dia algo além da dor. Algumas pessoas se beneficiam também da arteterapia, feita com um profissional.
Quando os remédios são usados, costumam ser em doses baixas e como parte de um plano maior, sempre com orientação médica. Analgésicos fortes, como os opioides, em geral não são indicados para fibromialgia.
Ninguém precisa carregar isso sozinha
A importância da rede de apoio
Frida viveu cercada de gente: amigos, alunos, artistas, a família. Nas fases mais difíceis, eram eles que levavam o mundo até a cama dela. Uma rede de apoio faz esse papel na vida de quem tem dor crônica.
Essa rede pode incluir a família e os amigos, que precisam de informação para entender o que acontece. Mostrar este texto, levar alguém a uma consulta ou explicar como é um dia de crise já ajuda. Pedir auxílio com tarefas concretas, como as compras ou a faxina da semana, costuma funcionar melhor do que esperar que os outros adivinhem.
A equipe de saúde também faz parte dela. O ideal é um cuidado com vários profissionais conversando entre si: médico, fisioterapeuta, educador físico, psicólogo e, quando possível, terapeuta ocupacional e nutricionista. No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde.
E há os grupos de pacientes, presenciais ou online. Conversar com quem vive a mesma situação diminui a solidão e traz dicas práticas, que nenhum livro ensina. Vale escolher apenas aqueles grupos que acolhem sem alimentar desesperança, assim como desconfiar de quem promete cura rápida.
Se a tristeza ficar pesada demais, a ponto de tirar o sentido das coisas, procure ajuda. O CVV atende pelo telefone 188, a qualquer hora, e conversar com seu médico sobre isso é parte do tratamento.

Para terminar
A fibromialgia ainda não tem cura, mas tem tratamento, e muita gente consegue reduzir as crises e voltar a fazer o que gosta. Nós não devemos, nunca, focar em tirar 100% da dor, mas sim, sempre, devolver a qualidade de vida ao paciente.
Esse caminho costuma ser feito de passos pequenos: uma caminhada curta que vira hábito, uma noite de sono um pouco melhor, uma conversa em que finalmente “alguém entende”.
Frida nunca ficou livre da dor, e ninguém deveria ser cobrado de ser forte o tempo todo como ela parecia ser. O que a obra dela mostra é que a dor fazia parte da vida, mas não era a vida inteira. Havia cor, flores, animais, amigos e muito trabalho em volta dela. Que você também encontre espaço para isso.
Este texto tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.
Se você se identificou com os sintomas, procure atendimento para uma avaliação completa.
sobre a Dra. Maria Fernanda – CRM 206.941 | RQE 124.323
Clínica médica, Reumatologia
Consultas voltadas para diagnóstico e tratamento de doenças autoimunes relacionadas ao tecido conjuntivo e doenças que afetam o sistema locomotor – ossos, ligamentos, músculos, tendões, assim como procedimentos como infiltrações articulares e também infusão de medicamentos.
Referência
- MARTÍNEZ-LAVÍN, M.; AMIGO, M. C.; COINDREAU, J.; CANOSO, J. Fibromyalgia in Frida Kahlo’s life and art. Arthritis & Rheumatism, v. 43, n. 3, p. 708-709, mar. 2000. Disponível neste link.



