Avanços em genética, diagnóstico precoce e manejo clínico revelam como a medicina está transformando o cuidado de pacientes com erros inatos da imunidade.
O editorial “Community series in primary immunodeficiencies worldwide” – escrito em co-autoria pelo dr. Antonio Condino-Neto, diretor da Alergológica, e publicado no periódico “Frontiers in Immunology – Primary Immunodeficiencies” – apresenta uma visão dos avanços recentes no estudo das imunodeficiências primárias (PIDs), também chamadas de erros inatos da imunidade. Embora raras, essas condições têm grande impacto na saúde, pois tornam o organismo mais vulnerável a infecções e a problemas de regulação do sistema imune.
O texto é uma síntese dos trabalhos reunidos no segundo volume da série “Community Series in Primary Immunodeficiencies Worldwide”, destacando progressos em genética, diagnóstico precoce e manejo clínico.
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Bases genéticas das imunodeficiências primárias
Em termos de evolução científica nos últimos anos, um dos pontos centrais é a ampliação do conhecimento sobre as bases genéticas das PIDs. Estudos recentes mostram que mutações em genes já conhecidos podem gerar quadros clínicos muito variados, o que dificulta o diagnóstico.
Um exemplo é o caso de uma mutação no gene RAG1, que normalmente está associada a imunodeficiências graves, mas que, no relato analisado, manifestou-se inicialmente como anemia hemolítica autoimune — um quadro que não remete imediatamente a uma PID. Outro caso relevante envolve uma nova mutação no gene IL2RG, responsável pela forma ligada ao X da imunodeficiência combinada grave (X-SCID). Apesar do tratamento intensivo, o paciente evoluiu mal devido a uma infecção disseminada por BCG, reforçando a importância de identificar esses casos o mais cedo possível.
Teste do Pezinho ampliado: um auxiliar de peso no diagnóstico
O artigo enfatiza o papel crucial do teste do pezinho ampliado para a saúde dos recém-nascidos. Países que adotaram a triagem neonatal para PIDs, como o Japão, têm conseguido diagnosticar X-SCID precocemente e realizar transplantes de células hematopoiéticas antes que complicações graves ocorram. No entanto, a implementação global ainda enfrenta desafios, especialmente em regiões com menos recursos.
Além disso, os autores destacam que os métodos atuais, baseados principalmente na dosagem de TREC (círculos de excisão de recombinação de células T), não detectam todas as PIDs. Um exemplo é a imunodeficiência associada ao gene IKZF1, que pode passar despercebida. Por isso, há propostas de incluir outros marcadores, como KREC, para ampliar a capacidade de detecção.
O artigo também discute ferramentas diagnósticas acessíveis e adaptáveis a diferentes realidades. Uma delas é o uso da globulina calculada como triagem para deficiências de anticorpos, especialmente útil em locais onde a dosagem de imunoglobulinas não está amplamente disponível. Outro destaque é a citometria de fluxo, que se mostra versátil para identificar tanto imunodeficiências clássicas (como SCID e síndrome de Omenn) quanto condições mais complexas, como síndrome de hiper-IgE e mutações de ganho de função em STAT1.
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PIDs e câncer
A relação entre PIDs, desregulação imune e risco aumentado de câncer também recebe atenção no trabalho. Estudos sobre ataxia telangiectasia e síndrome de Nijmegen mostram que defeitos no reparo do DNA e na função de células T e NK contribuem para maior predisposição a tumores. A experiência clínica acumulada reforça a necessidade de monitoramento contínuo, diagnóstico molecular preciso e intervenções terapêuticas oportunas, como reposição de imunoglobulinas e quimioterapia precoce quando indicada.
Direcionamento para o futuro
Mais do que fornecer um diagnóstico do momento atual, o editorial aponta direções futuras, capazes de ampliar a cobertura de saúde para pessoas com imunodeficiências primárias. Destaques são dados às seguintes ações:
- ampliar programas de triagem neonatal,
- desenvolver terapias gênicas e biológicos mais específicos,
- fortalecer a colaboração internacional para reduzir desigualdades no diagnóstico e no tratamento.
A diversidade de apresentações clínicas e a complexidade genética das PIDs tornam essencial a integração entre pesquisa, prática clínica e políticas de saúde, em escalas locais e globais.
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Referência
- Condino-Neto A, Korganow A-S and Kanegane H (2025) Editorial: Community series in primary immunodeficiencies worldwide, volume II. Front. Immunol. 16:1564959. doi: 10.3389/fimmu.2025.156495910.1111/pai.70047

